O meu avô paterno, lembro-me, escrevia ‘quiz’. Quis, aliás, ditou a a lei que, a partir deste novo ano, tudo o que me acontecer escrever no emprego tenha que obedecer ao novo acordo ortográfico (AO) e, por isso, foi-me proporcionado em Novembro a possibilidade de frequentar uma acção de formação sobre o tema. Como, até lá, não me tinha preocupado minimamente com o assunto, e sabendo do que este ano me esperava, inscrevi-me – um ‘quê’ curiosa, outro porque decerto na tal acção me dariam um manual, útil, também, a uma Amiga que ensina Português no estrangeiro (felizmente, para ela, lecciona numa escola não dependente das finanças da pátria).
Sabida, a senhora que ministrou a acção abriu a dita mostrando aos formandos um parágrafo escrito em Português do tempo dos Descobrimentos, para que ninguém deixasse de pensar que a língua evolui, o que também acho, ainda que roa mal o motivo primeiro que gerou o actual AO. Outra qualidade da formadora era a pedagogia e acabou por transformar o resto da manhã num jogo, em que, após desfiado cada 'capítulo' das novas regras, os formandos foram desafiados a adivinhar o destino na nova escrita para os exemplos por ela lançados. Deixem-me gabar, ir a jogo sabe melhor a vencer, que acertei na maior parte deles, inclusivamente no que me fez mudar, horrorizada, de posição na cadeira: não, não foi por causa do neorrealismo italiano que, jovem cine-clubista em LM/Maputo, sempre quis conhecer a Itália – caramba, não podiam ter deixado, um movimento com a importância que este teve, em paz?... Não, deu-se cabo do hífen, não para poupar na tonner mas, para dobrar a consoante que lhe seguia. E a sessão continuou (e acabou) e eu, até esta semana, nunca mais me tinha preocupado com o assunto.
Nos últimos tempos, tenho, sobretudo, abrido ‘spss’ e ‘excel’, pelo que até me aliviou que o parecer que me pediram para fazer no início desta semana resultasse, quase à primeira, num texto de cinco ou seis páginas razoavelmente bem estruturado. O pior foi quando, a lei é para cumprir, no dia seguinte pedi ao programa-conversor que o pusesse em condições de ser enviado à instância superior… ughh!, oh, para mim, a minimizar o Português que tanto prezo!... – pois é, a língua evolui, o meu avô escrevia ‘quiz’, mas que até as próprias palavras parecem outras, o que me obriga a relê-las para ver se não me enganei, como me tem acontecido nas biografias do ‘Expresso’ que continuo a consumir, isso…
-
Nota: Este texto está escrito no ‘velho’ Português, não tenho o ‘conversor’ incorporado no computador (programa que, tanto quanto sei, exige a versão 10 do 'word'). E 'algo' me diz que, fora do emprego, vou continuar a escrever 'Maio' como merece ser destacado o mês que me deu Vida.
Desde o último post, partiram Cesária Évora e Vaclav Havel, dois símbolos, respectivamente, da Música e da Democracia. Ainda me lembro de ter ido para o ‘British Bar’ fazer horas para o poder saudar na Praça do Município, a primeira vez que cá esteve presidente eleito – na mesa ao lado, José Cardoso Pires (com Maria Velho da Costa, a minha dupla favorita da escrita portuguesa contemporânea).
Em 2011, o Mundo Lusófono perdeu Malangatana e, eu, o Afecto da Tia Lili. Vivos e seres pensantes que continuo a admirar, Mário Soares e Eduardo Lourenço, merecidíssimo Prémio Pessoa. Oh, Europa, se te dignasses a ouvi-los com atenção, eras, garanto-te, menos vazia de ideias – e dói-me a Grécia, como diria a ‘Mafalda’, logo a mim, que sei de cor que este canto à beira-mar encravado não é a Irlanda, a ilha azul e verde que (raios partam os tais dois que só numa privada conseguiram arranjar canudo) me vai continuar a faltar.
Este foi também o ano em que as ruas árabes inspiraram muitas outras e, das tendas que coloriram as praças, saiu gente que exigiu à ditadura, nuns casos, e à especulação financeira, noutros, que circulassem para londe da vida a que temos direito. Uma luta com desenvolvimentos diferentes e à qual convem continuar atento.
O meu ordenado andou (de novo) para trás, muito em jeito de treino para os que aí vêm. Portugal para quem não prevê emigrar, ao contrário do que fizeram os lusitanos com que, na Primavera, me cruzei (não sem alguma desilusão) no Luxemburgo. Actualizar o ‘cv’ pode ser uma boa sugestão para Janeiro, até porque aprendi outra forma digital de explorar informação. Melhor sugestão ainda, daí ter passado a promessa, é voltar a ler que foi vergonhoso 2011 no que ao verbo respeita (bem sei que deixei de andar de autocarro e sobrou ‘Público’ para o regresso, mas…). Já ao cinema, voltei a ir (e até bisei em dois casos), como mostra a lista a seguir.
-
Filmes (a verde os que gostei mais)
“José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes (2x)
“O Discurso do Rei”, de Tom Hooper
“Os miúdos estão bem”, de Lisa Cholodenko
"Vais conhecer o homem dos teus sonhos”, de Woody Allen
“Potiche”, de François Ozon
“Os pinguins do Sr. Popper”, de Mark Waters
“Bem-vindo ao Sul”, de Luca Miniero
“Os Smurfs, de Raja Gosnell
“Meia-noite em Paris”, de Woody Allen (2x)
“As Serviçais”, de Tate Taylor
-
Livros
“Marina”, de Carlos Ruiz Zafón
“O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald
"Paredes Abertas ao Céu", de Inez Andrade Paes
“Ilha”, de Miguel Botelho – pela alegria que me deu esta edição, há tanto desejada e tão merecida pela escrita bonita do autor, elejo o livro do Miguel ‘inner’ a obra do (meu) ano. E nada de bocas, só porque o livro tem página 33…
“A Infanta Rebelde”, de Raquel Ochoa
“Simone de Beauvoir – Olhares Sobre a Mulher e o Feminino”, de Isabel Capeloa Gil e Manuel Cândido Pimentel
“Checoslováquia”, de Tiago Patrício
“Manauè e outros contos”, de Rui Cartaxana
“Ernest Hemingway” - Hans-Peter Rodenberg (prefácio de MST)
“John Maynard Keynes”, de Reinhard Blomert (prefácio de Nicolau Santos), biografia ainda em leitura, mas, pela conversa que ando a ter com o livrinho, acho que no final vai dar post.
-
Discos:
Keith Jarret Trio: “Somewhere Before”, Charlie Haden e na bateria Paul Motian
“The Jazz Vocalists Sings: Swing, Music for Dancers",
-
Sem sair da música, e last but not the least, este foi o ano em que a ‘Estação B’ me voltou a fazer companhia. Tinha-o anunciado em post de um ‘chuinga’ antigo, quando já o projecto estava em andamento, que no mais bonito dos oceanos tantos estavam a bater-se para que os hitparades com que crescemos voltassem a fazer-se ouvir. É realidade! – e, era impossível passar-me ao lado, que interessante é ver (a) LM (radio), transmitida a partir de Maputo: a força de uma sigla!!
Bonito, foi também voltar a ter um ringue nas mãos, aconteceu no piquenique do liceu das meninas, graças à perseverança da Lisete, a última (e a mais nova) das professoras de Inglês que tive. E naquela que se tornou a mesa do café do momento (o fb), sentaram-se, a fechar o ano, alguns dos amigos que faltava ter o privilégio de reencontrar. Deixem-me citar dois, o Adriano e a Vandinha, entre os tantos com quem vivi o tempo da Utopia.
-
Teve de tudo, no que toca às emoções, o meu 2011. Mas algo me diz que 2012 vai precisar, sobretudo, de um duo de peso: Saúde & Criatividade, recebam-nos aos molhos, malta!! – oh, depois, no 'chuinga' que há-de vir, conto-vos a acção de formação que frequentei sobre o (des)acordo ortográfico…, como, profissionalmente, não tenho como lhe escapar, a minha professora da escola primária (com vista para a igreja da Polana) que enfie a régua no armário.
IO
A todos os e-leitores,
como habitualmente, os votos de um
Natal a Gosto!!
- IO e 'chuinga'.
Quando, por causa das Cartas de Praga, nos reencontrámos, achei divertidíssimo que me tivesse dito “Agora, escrevo para ganhar prémios” – assim, à Tiago, o miúdo de 21 anos que conheci no curso de escrita criativa da ‘Aula do Risco’ em 2001 (nessa altura, a ‘vedeta’ era eu que, no meio daqueles ‘amadores’ todos, até já tinha um livro publicado, sem cunha, e a certeza de outro a caminho).
Para conseguir ganhar prémios, uma coisa, antes de mais, é preciso: escrever – o que nunca mais fiz e o que ele não cessou de fazer. Com êxito, quer na ‘desculpa’ por que o faz quer, efectivamente, nos prémios que têm demonstrado que escreve e bem.
Motivo deste post, ‘apenas’ dizer-vos que foi um prazer, ontem, ver passar naquelas 'letrinhas' que vão desfilando no ecrã da tv por baixo dos telejornais em que só se fala da crise (algo que o esforço e a inspiração do Tiago desconhecem) que um ‘tal’ Tiago Patrício tinha ganho (outro) prémio, desta vez o Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire.
Sobre o premiado, ainda não há muito tempo, o ‘chuinga’ noticiou Checoslováquia. Mais uma vez, um beijo de Parabéns, Tiago!! – e já, agora, desculpa ainda não ter respondido ao e-mail que me enviaste esta semana a contar da tua última actividade.
-
Ontem, por várias vezes, uma luz bonita, como a que se acende nos candeeiros da cidade quando o sol desaparece na laguna, piscou para me recordar que àquela hora o mais querido dos meus primos se passeava, pela primeira vez, em Veneza. Talvez o verbo certo seja ‘espantava’. Porque é esse o poder da cidade dos canais: podemos, antes de a atravessar, ter visto todos as fotografias ou vídeos que outros fizeram, mas nada é capaz de nos preparar para a sensação de “magia” (expressão do próprio) que Venezia nos oferece quando lá chegamos da primeira vez. Daí a alegria, sempre saudavelmente invejosa, deste post: que bom estares em Veneza, primo!
Não sei se te lembras, mas a primeira vez que aí cheguei foi à boleia em Setembro de 1984. Era noite (saíra de Milão às três da tarde) e o condutor do carro que me apanhara em Mestre, sobre a Ponte da Liberdade, apontou para a janela e lamentou que não fosse dia, seria outra a paisagem – e o espanto, que só senti quando, outra vez de mochila às costas e já depois de termos atravessado, quase ‘mecanicamente’, a primeira das pontes (ainda não havia a de Calatrava), me defrontei com uma tabuleta que dizia ‘taxi’!... Como, ‘taxi’, se estávamos à beira de um canal!?... Logo surgiu um barco a motor de madeira polida e então, sim, interiorizei feliz que tinha, finalmente, chegado a uma das cidades que toda a vida (desde o tempo em brincámos juntos no Parque Zé Cabral) tinha apostado vir a conhecer: Veneza. Acabava de chegar esse dia, aliás essa noite, em que, nunca mais o esqueci, logo a seguir passou uma excursão turística de gôndolas cujo músico de serviço entoava “I could have dance all night”. So do I!...
A capa do 'Publico' de ontem.
-
Ontem, no ‘Público’, comoveu-me o belíssimo texto (de Patrícia Carvalho) que legendou o encontro da menina cuja fotografia foi ícone da emigração portuguesa nos anos 60 com o autor da imagem, francês. O reencontro da mulher, meio século depois, consigo mesma e com a pobreza a que o Estado Novo vetou um povo.
No final dos anos 70 e início dos 80 já não havia, maioritariamente, bidonvilles a albergar os portugueses com quem, sazonal e clandestinamente, me cruzei pela Europa (Ocidental). Trabalhámos nos mesmos campos, colhendo, o emigrante de todo o ano, o ganha-pão que o Portugal democrático ainda não lhe podia dar (só depois chegariam o esbanjamento no asfalto e o crédito saloio) e, a menina universitária que era, mais alguns francos (suíços ou franceses) para conseguir prolongar as férias de Verão. Se a casa dos emigrantes lusitanos na Europa, então, já não era de lata, os seus níveis de instrução e cultura, esses, pouco tinham avançado. Grande, faço questão de sublinhar, era a sua generosidade, tantas as vezes que me vi obrigada a comer do farnel daquela boa gente, quer na estrada entre Vilar Formoso e Bayonne quer sobre os atalhos que ladeavam as videiras gaulesas ou os helvéticos pomares de peras e maçãs.
Trinta anos volvidos sobre o tempo em que, sobretudo, os emigrantes portugueses deixaram de temer a fronteira de Hendaya (entrada na CEE), os media não cessam de nos encher os ouvidos sobre a mudança estrutural sofrida nos que partem, outra vez. Portugal, alem-fronteiras, agora, 'só doutores'. Daí, o meu (triste) espanto no final da Primavera passada, quando, a caminho do Luxemburgo, o avião fez escala no Porto e o país real entrou… Bom, a roupa até pode ter passado a ser de ‘marca’, mas a cabecinha enterrada no boné ou a enfeitada com laçarote, essa, continua a mesma. Nem os estrondosos arrotos e palavrões gabarolas, para todo o avião ouvir, acabaram. E à chegada, ali onde um terço da população tem passaporte lusitano, pude constactar que Portugal continua a emigrar para servir, de aspirador na mão nos corredores dos hotéis, nos andaimes da construção civil, atrás do balcão da pequena loja que vende postais e bilhetes de lotaria ou no campo – como me aconteceu ouvir, em nada mudou também (desde o tempo em que aguardávamos o ‘sim’ da Europa dos ‘ricos’) a baixa conversa sobre o «patron».
Se, profissionalmente, a apresentação nas instâncias comunitárias me correu bem, na bagagem trouxe, ao invés, a tristeza por um Portugal que, três gerações depois da menina da fotografia, continua, apesar do tanto que a democracia permitiu avançar, com “baixas qualificações”, como (semanas depois do meu regresso) corroborou um artigo do ‘Publico’ dedicado à presença lusa no grão-ducado.
-
Fado, destino e canção nasceu por cá e na voz de Amália girou mundo.
Carlos do Carmo, “Um homem na cidade”, deu-lhe nova roupagem e, livre, reconciliou-me (na segunda metade dos anos 70) com a canção nacional.
Foi hoje reconhecido Património Imaterial da Humanidade. Parabéns, Fado!
Tratamento desigual, nos meios de comunicação. Poema de Fernando Correia de Pina que, seis anos depois, volto a publicar no 'chuinga' para que mais o possam ler:
Saldo Negativo
Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu
que amputar uma perna, a frio, a um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.
É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.
É mais perverso cancelar o cartão de crédito a um belga
que roubar o pão da boca a um tailandês.
É muito mais grave deitar um papel para o chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.
É muito mais intolerável o shador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiénico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem telemóvel
que um moçambicano sem livros para estudar.
É mais triste uma laranjeira seca num colonato hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de uma Barbie a uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais a um menino ugandês
e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do ocidente.
de Fernando Correia Pina
. de quarta para quinta-fei...
. outro!
. magia
. em greve
. f